1. Lean Innovation (draft 1)

    1 - Introdução 

    Lean Innovation em sua definição mais simples é uma generalização da aplicação de Lean Startup para incluir também o desenvolvimento de produtos e empresas de tecnologia em empresas maduras. Lean Startup por sua vez é uma leitura recente e uma autocrítica do vale do silício sobre a última bolha e o imperativo de criar ativos saudáveis num ambiente de escassez de capital de risco (ou outras formas de financiamento) .  Trata-se de entender que estamos lidando com sistemas dinâmicos complexos que parecem ser melhor abordados de forma empírica tanto em como fazer mas principalmente em o que fazer. Finalmente este conjunto de artigos são uma fotografia atual de 12 anos de reflexão sobre como fazer SW e produtos digitais e uma crítica construtiva ao movimento ágil que nos mostrou parte do caminho mas principalmente nos deu esperança para continuar tentando. 

    2 - Duas premissas erradas, você sabe “o que fazer e como fazer”

    O principal causador de insucesso em produtos e empresas de tecnologia é a utilização do processo clássico de lançamento de produto.  Conhecido como cascata, ele assume duas premissas erradas, que você conhece perfeitamente o problema a ser resolvido e que  você sabe o que construir para resolve-lo.

    Ao invés de aceitar que você está lidando com um sistema dinâmico e complexo e ajustar sua abordagem para este fato, é um comportamento extremamente comum (Confirmation Bias ) que se altere a percepção do que de fato é o problema e se ataque ele com uma estratégia em cascata .

    waterfall

    O resultado disto é que se produza de forma errada algo que ninguém quer  e que o contato com os clientes ocorra depois de todo o investimento feito.

    Os exemplos de desastres causados pela combinação de waterfall em tecnologia são fartos que vão desde a rede iridiun de telefonia por satélite até recentes startups como Color.

    3.   Os ciclos de empresas de tecnologia

    Se considerarmos que o ciclo de tech começa com o surgimento do vale do silício como resultado do esforço de guerra eletrônica dos americanos na segunda guerra mundial  podemos dividir a linha de tempo de empresas de tecnologia em quatro fases

    a) 1970 – 1995  Contruir um negócio (receita)

    Planos de negócio, processo de desenvolvimento de produto waterfall

     b) 1995 – 2000 “flipar” um negócio novo (IPO conceitual)

    10 MM para começar, objetivo era fazer um IPO (com pouca ou nenhuma receita e nenhum lucro). Metodologia repetível, marca, hype, IPO.

     c) 2001 – 2011  Contruir um negócio (M&A)

    Mercado de IPO fechado, M&A é o caminho de liquidez

     Feitas para durar (mas aceitamos ofertas :) )

     Os fundadores se adaptam e aprendem LEAN

     Foco em criar clientes e não produtos

     Sem hype

    d) 2011 – 2014  “flipar” um negócio que existe (M&A / IPO)


    3. O que é uma startup?

    A definição clássica é “uma nova empresa que tem menos de dois anos de idade e recebeu menos de R$ 5 milhões de investimento”. Eric Ries deu a seguinte definição: “A startup is a human institution designed to deliver a new product or service under conditions of extreme uncertainty”. 

    Não podemos avaliar a definição por simetria, porque uma startup não é uma miniempresa grande. Empresas grandes executam modelos de negócio já prontos, enquanto startups buscam validar modelos de negócio.

    Juntando tudo, uma startup é uma instituição humana que busca validar um modelo de negócio, entregando um produto ou serviço em um ambiente de grande incerteza e que seja escalável (seja jovem e não uma empresa de estilo de vida).

    4. Customer Develoment

    Depois do aprendizado da primeira bolha, Steve Blank enxergou um padrão nas startups de sucesso, que resumiu no livro “The Four Steps to the Epiphany”. Segundo o autor, tais startups eram capazes de enxergar que tanto o problema quanto a solução eram desconhecidos no início da jornada. Neste caso, não adiantava elaborar grandes ciclos de planejamento e encontrar o cliente tardiamente com uma solução não testada em campo.

    Além disso, estes empreendedores visionários eram capazes de tratar estas etapas de validação de problema e solução como ciclos de validação de hipóteses de negócio, que poderiam ser validadas ou não. Ele formalizou assim uma heurística para validação de modelo de negócio.

    5. O que é Lean Startup?

    O conceito de Lean Startup foi criado por Eric Ries (baseado no trabalho de Steve Blank), a partir de uma reflexão de dez anos de aprendizado após a primeira bolha de internet. A ideia, que já é comumente usada nos EUA é que, ao contrário de negócios estabelecidos, o objetivo de uma startup escalável é validar um modelo de negócio, e não executá-lo como uma miniempresa grande. 

    Este tipo de ambiente de grande incerteza requer agilidade e uma abordagem empírica, buscando sistematicamente tratar seu modelo de negócio como um conjunto de hipóteses que precisam ser validadas ou abandonadas rapidamente.  O conceito foi a união do processo de customer development (de Steve Blank), métodos ágeis de desenvolvimento de produto e alguns conceitos de manufatura Lean, como lotes pequenos. 

    Tal abordagem não garante o sucesso da empreitada, mas aumenta muito sua chance de sucesso eliminando o desperdício e o crescimento precipitado (não sustentável). Com isso, hoje podemos criar startups de tecnologia com investimentos iniciais de menos R$ 500 mil, o que na época da primeira bolha era de R$ 10 milhões. 

    Após 13 anos de experiência, passagem pelas duas bolhas e ter trabalhado em mais de 20 startups (próprias e de terceiros), com erros e acertos, podemos dizer que Lean Startup é, hoje, o modelo mais adequado para empreender em tecnologia. No que tange a desenvolvimento de produto, para agir de maneira mais rápida e evolutiva, os pioneiros em Lean Startup no Brasil optaram pelos métodos ágeis, uma forma empírica de criar software sem desperdícios que têm no SCRUM e no Kanban seus principais representantes. Com a metodologia, os projetos não têm escopo rígido e cada etapa é construída de forma evolutiva, com cliente e fornecedor atuando conjuntamente. 

    Porém, como dizia Peter Drucker, não existe desperdício maior do que executar com perfeição algo que ninguém quer. Métodos ágeis, apesar de endereçarem o espaço da solução, não ajudavam a entender o problema, que era validar o modelo de negócio. Por isso, a metodologida teve de adotar também o desenvolvimento do cliente (Customer Development). Para facilitar o entendimento e a evolução de tudo isso, Alex Osterwalder criou depois o Business Model Generation, que falaremos mais a frente.

    A abordagem afeta também a forma como se levanta capital hoje. Um fundo de Venture Capital atualmente está interessado em milestones de aprendizado e premissas validadas, que permitem que o dinheiro seja investido progressivamente em fatos e não em teses apaixonadas dos fundadores. Empreender continua precisando de paixão, mas os fundos precisam do que Ries chamou de contabilidade de inovação: o dinheiro segue o aprendizado.

     O maior desastre da história das startups é uma prova por absurdo que a abordagem de Lean Startup é a mais indicada. A Iridium destruiu US$ 5,2 bilhões porque durante os onze anos que comprou 15 foguetes e colocou mais de 75 satélites em órbita o mercado de comunicação móvel mudou. Ao invés dos 42 milhões de clientes esperados, a empresa teve apenas 30 mil no seu pico. O plano de negócios foi seguido com precisão até o precipício, enquanto que o processo de Customer Development teria trazido alarmes antecipados disto.

    Além disso, os modelos de open source e de cloud computing democratizaram o espaço de competição, eliminando a necessidade de investimentos na infraestrutura computacional e dando uma adaptabilidade fluida a esta estrutura, que se molda perfeitamente ao negócio. Assim, as melhorias são visíveis em qualidade, velocidade e custo, o que faz da prática Lean Startup associada ao uso de ferramentas open source e cloud computing a melhor forma de estruturar um novo negócio de tecnologia atualmente.